Um Título Qualquer.
Esse beijo que dei a pouco, o dei a vários outros de forma tão e até mais terna do que essa como de vez ou outra tenha te tocado. Sinto que reduzo assim, com palavras indelicadas e com um desafeto aparentemente grotesco todo relacionamento por que percorro. Não desprezo nem amo os que mantenho ou que mantive antes, uso um e outro como desculpa para manter vivo um corpo que aos poucos se esgota. Como um escape físico que me distrai nas mais diversas horas, por instantes em que me engano ao acreditar que não lembro mais do que um transeunte que nos viu caminhar a tantos anos atrás.
Amo como nunca amei alguém que nem mais vive. Você, de quem me lembro tão claramente como se estivesse bem aqui. Toda culpa que carrego em remorso trás de volta seus traços e gestos e eu me lembro bem. Eu sinto. Sei que nenhum deles é você e por isso os deixo como tantos os outros, irados e aborrecidos. Insatisfeitos por serem sempre outros perto de um traço, um gesto, um rosto. Incompatíveis com a lembrança serena de quem fui, da vida da qual abri mão voluntariamente sem noção do meu próprio engano.
Meu bem, o tempo que te levou também me leva agora, mas de forma tão branda que me apavora. Meu rosto partido, meus sussurros falhos. Tudo é uma prova para o mundo de que também parto em nome de cada dia que vivi, de cada escolha que fiz, de cada dia em que eu te esqueci estando ao seu lado e vivendo como se fossemos apenas mais um prazer que fosse durar para todo o sempre que seria esta minha vida. Esses anos ousados, lentos e fadados só me deixam mais velha e a par do que eu vi e a cada instante de dor eu recorro à uma imagem, à uma alucinação calma que me engana sempre e que irá me enganar uma vez mais, por fim.
Estamos aqui, onde eu te deixei, mas a minha boca fraca já não pode mais te falar aquelas besteiras brutas que te faziam sorrir, a sensibilidade na ponta dos dedos se foi junto às minhas passadas e já não posso te desenhar desculpas e correr para seus braços quando eu bem quiser. Meu tempo é breve e corre como a única coisa verdadeira por perto viva o suficiente pra me sufocar ainda um pouco mais. Por um instante perco o ar e me permito perder por uma última vez. Até que uma agonia entranhada me abate de forma leve como todo fim deve ser. Ganho forças, como meu último , e enfim definitivo, desfecho e meus olhos te chamam até mim.
Eu só posso imaginar que te abraço agora e olho fundo nos seus olhos enquanto seguimos rumos longos e tristes. Os percorremos com um simples desejo mas sabendo que nunca voltaremos. É a única vez que você me vê chorar.