Dias se passam comigo envolta num sonho macio de algodão .
Recosto por hora sobre tudo aquilo que é mais sagrado . Meus encargos esquecidos , procrastinados para a próxima etapa . Em silêncio expiro esperanças e desagrados . Fecho em gestos leves meus olhos , tampando-os suavemente com as pontas dos dedos para que enfim descansem enquanto meus lábios brincam com fogo . Tudo aquilo que me circunda se despede e escapa da vida com o tempo . Tudo se vai , vai e eu vou junto . Sem culpa na consciência , sabendo que nunca chegarei ao ‘lugar qualquer’ . Não tenho pretensão disto , nem ao menos sei como fazê-lo . E mesmo que tentasse , nenhum caminho me amedronta mais do que esta linha perfeitamente reta diante de mim . Tão perfeita que - se vista de perto - treme , rompe e estrangula na sua própria abismal existência , na falha de ser como é . Não consigo acreditar que um dia me leve , que me tire daqui , rumo ao que não sei . Só consigo desejar que desmorone diante de mim , e se contorça em mil curvas sinuosas . Que doa – em si e em mim - o suficiente pra torcer e viver enfim em paz , em conforto . Que se torne real , inundada da agonia em ‘ser’ . E para que assim eu viva nela , também em paz , também em conforto . Findando e sendo exaustivamente a cada dia .