Cipreste
Já se fazia algum tempo que não era feito um silêncio como aquele. Ele olhava pelo o corredor furtivamente , abandonava-se num gesto seco contra a parede e fechava os olhos . Ainda assim não ouvia nada . Não que ele precisa-se ouvir algum som em específico , qualquer ruído lhe bastaria . A queda de um palito de prata , gritos vizinhos , sussurros de ventos entrelaçados , só isso já lhe bastaria . A introspecção então lhe apavorava , a dias não dormia . Não sonhava , não falava , não exacerbava suas vontades mais intrínsecas . Não sabia nem quais eram essas vontades , não tinha referencial . Ele então abria os olhos em desespero , estava completamente sozinho . Sabia que não havia ninguém em sua casa , mas em sua cabeça , como podia não haver ? O mundo se deu o trabalho de partir e levou consigo ele mesmo , sem aviso prévio , sem também constatação . A quanto tempo fora deixado de lado ? Não sabia e não podia se lembrar . Ele olhava envolta na esperança de ter um alvo a culpar por isso tudo , mas assim como o som , não havia . Agonizava-lhe a ideia de admitir que aquilo fora seu feito , que havia sido ele o culpado . Seu peito palpitava , suas mãos suavam e sua pele gritava a verdade : fora ele . Fora ele desde o princípio , fora ele a ouvir a porta bater pela última vez e trancá-la por dentro . Aquela solidão , aquela ausência e sensação de insuficiência , era tudo sua arte . Sua criação mais insana . Era tudo o que tinha . Um sorriso fraco então lhe tomou , não estava feliz , nem naufragado em alívio . Apenas sorria , ele e os mal traçadas caminhos que se abriam por entre seu rosto , brilhando por todo aquele espaço e caiando em coisa nenhuma . Lágrimas a muito guardadas , que não foram cogitadas. Que vinham sem querer , assim como tudo que lhe abatera até então , repentina e intensamente , à flor da pele . Lágrimas que nem sabia que tinha , irrompiam o silêncio , sem sentimento por ele reconhecido , insinuadas e sem perdão .